A miséria da palavra é a miséria da nossa civilização. A miséria da palavra é o triunfo da massificação, do distanciamento, do apartamento, da alienação do humano em relação a si mesmo. Houve um tempo, nos fala Michel Foucault, onde a palavra era a verdade e a verdade era a palavra, porque a palavra expressava o absoluto da prática, da vida, do estar vivo, do ser. Nesse tempo, tudo era o verbo e o verbo era Deus, revela o autor do Gênesis bíblico. Eu acrescentaria que Deus éramos nós, os homens, porque criávamos o mundo, nós mesmos e o próprio Deus através da palavra.
A apartação histórica da palavra verdadeira - ainda segundo a arguta percepção de Foucault - não significou apenas a redução da palavra ao enunciado, ao dito pelo dito, mas nos jogou em um caminho de inevitável empobrecimento social, porque a palavra violada na sua função sagrada de constituir a realidade - posto que penetrava o seu mistério mais profundo - não era mais a liga que atribuía sentido ao grupo, o cimento social que permitia a cada um ser uno com todos e, nisso, o todo, o coletivo, a comuna, deixa de ser sagrada. A palavra deixa de ser poder de todos, poder universal, para se tornar poder de alguns que não sintetizam mais o todo. Sim, porque se a palavra expressa o poder criador ela é certamente O PODER e esvaziá-la é mistificar esse poder.
Disso sabiam os hebreus que julgavam como maior dos pecados o pronunciamento do nome do Deus-palavra em vão. Também os milenares indianos, que pelo OM descobriram a conexão com o universo, com o infinito que está em cada um de nós. Já para os africanos, tão forte é a crença no poder criador e harmonizador da palavra, o seu poder de manter o equilíbrio e continuidade do grupo social, que desde cedo escolhem, dentre suas crianças, aquelas destinadas a atuarem como guardiães da palavra, guardiães, assim, da existência da própria coletividade. Também os africanos criam os griots, menestréis da palavra, detentores da memória coletiva, do legado vivo dos ancestrais. Nessas sociedades a palavra é sagrada não porque seja sobrenatural, mas justamente porque expressa e penetra o sagrado de ser humano, o milagre de estar vivo. Essas, verdadeiramente, são sociedades da palavra, sociedades para quem, de tão importante, a palavra é guardada, zelada, passada às gerações futuras como um tesouro, para ser usada com sabedoria, lentamente. Daí o uso da palavra exigir uma situação ritual, um espaço-tempo capaz de conectar cada um com o sagrado-criativo da palavra, com seu poder real-coletivo.
Nossa civilização há muito perdeu esse sentido da palavra. Naquela época a palavra era a verdadeira arte, aquela arte perseguida por Artaud, a arte pulsante gerada na e para a vida, capaz de estremecer a nossa menor fibra, de penetrar nossa respiração e nos dar o verdadeiro sentido da alma. Nossa civilização destroçou essa palavra viva, pisoteou sobre ela, cortou-a em mil pedaços para arrancar dela o que havia de mais verdadeiro e, assim, poder reproduzir o exterior da palavra ao extremo, da palavra vazia, é certo, essa palavra capaz de ser embalada, enfeitada, preparada para o consumo fácil, rápido e fugaz.
Aperfeiçoamos essa capacidade ao extremo, desenvolvemos mecanismos tecnológicos sofisticadíssimos de reprodução da palavra vazia e, com isso, criamos a ilusão de termos o poder da palavra quando na verdade nosso poder começa e termina na superfície das coisas, no fenomenológico do social, e nos mantém ainda mais distantes de nós mesmos, embora crentes de que estejamos como nunca aproximados pelos cabos óticos da internet e pelos sinais de satélite.
Nosso triunfo sobre a palavra verdadeira é nossa maior derrota. Deixamos de ser homens de palavra, ou seja deixamos de ser homens de verdade, para nos tornarmos falsos homens, falsas sociedades, sociedades da palavra vazia, da palavra mistificada. Nós, que criamos o teatro, antigos templos da palavra viva, não temos para onde correr do nosso sofrimento. Na verdade, não sabemos sequer como expressa-lo, que dirá como superá-lo. Desaprendemos o religare da palavra.
Quiséramos ser como o antigo escravo malê que, conhecedor do real poder da palavra, a escrevia em tábuas rituais que eram lavadas e bebidas. Isso mesmo, quiséramos ser como eles, verdadeiros bebedores de palavra, porque sedentos pela vida na palavra, esse tônico primordial, essa ponte entre nós.
A apartação histórica da palavra verdadeira - ainda segundo a arguta percepção de Foucault - não significou apenas a redução da palavra ao enunciado, ao dito pelo dito, mas nos jogou em um caminho de inevitável empobrecimento social, porque a palavra violada na sua função sagrada de constituir a realidade - posto que penetrava o seu mistério mais profundo - não era mais a liga que atribuía sentido ao grupo, o cimento social que permitia a cada um ser uno com todos e, nisso, o todo, o coletivo, a comuna, deixa de ser sagrada. A palavra deixa de ser poder de todos, poder universal, para se tornar poder de alguns que não sintetizam mais o todo. Sim, porque se a palavra expressa o poder criador ela é certamente O PODER e esvaziá-la é mistificar esse poder.
Disso sabiam os hebreus que julgavam como maior dos pecados o pronunciamento do nome do Deus-palavra em vão. Também os milenares indianos, que pelo OM descobriram a conexão com o universo, com o infinito que está em cada um de nós. Já para os africanos, tão forte é a crença no poder criador e harmonizador da palavra, o seu poder de manter o equilíbrio e continuidade do grupo social, que desde cedo escolhem, dentre suas crianças, aquelas destinadas a atuarem como guardiães da palavra, guardiães, assim, da existência da própria coletividade. Também os africanos criam os griots, menestréis da palavra, detentores da memória coletiva, do legado vivo dos ancestrais. Nessas sociedades a palavra é sagrada não porque seja sobrenatural, mas justamente porque expressa e penetra o sagrado de ser humano, o milagre de estar vivo. Essas, verdadeiramente, são sociedades da palavra, sociedades para quem, de tão importante, a palavra é guardada, zelada, passada às gerações futuras como um tesouro, para ser usada com sabedoria, lentamente. Daí o uso da palavra exigir uma situação ritual, um espaço-tempo capaz de conectar cada um com o sagrado-criativo da palavra, com seu poder real-coletivo.
Nossa civilização há muito perdeu esse sentido da palavra. Naquela época a palavra era a verdadeira arte, aquela arte perseguida por Artaud, a arte pulsante gerada na e para a vida, capaz de estremecer a nossa menor fibra, de penetrar nossa respiração e nos dar o verdadeiro sentido da alma. Nossa civilização destroçou essa palavra viva, pisoteou sobre ela, cortou-a em mil pedaços para arrancar dela o que havia de mais verdadeiro e, assim, poder reproduzir o exterior da palavra ao extremo, da palavra vazia, é certo, essa palavra capaz de ser embalada, enfeitada, preparada para o consumo fácil, rápido e fugaz.
Aperfeiçoamos essa capacidade ao extremo, desenvolvemos mecanismos tecnológicos sofisticadíssimos de reprodução da palavra vazia e, com isso, criamos a ilusão de termos o poder da palavra quando na verdade nosso poder começa e termina na superfície das coisas, no fenomenológico do social, e nos mantém ainda mais distantes de nós mesmos, embora crentes de que estejamos como nunca aproximados pelos cabos óticos da internet e pelos sinais de satélite.
Nosso triunfo sobre a palavra verdadeira é nossa maior derrota. Deixamos de ser homens de palavra, ou seja deixamos de ser homens de verdade, para nos tornarmos falsos homens, falsas sociedades, sociedades da palavra vazia, da palavra mistificada. Nós, que criamos o teatro, antigos templos da palavra viva, não temos para onde correr do nosso sofrimento. Na verdade, não sabemos sequer como expressa-lo, que dirá como superá-lo. Desaprendemos o religare da palavra.
Quiséramos ser como o antigo escravo malê que, conhecedor do real poder da palavra, a escrevia em tábuas rituais que eram lavadas e bebidas. Isso mesmo, quiséramos ser como eles, verdadeiros bebedores de palavra, porque sedentos pela vida na palavra, esse tônico primordial, essa ponte entre nós.